Cuba no escuro – ICL Notícias

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Por Marcelo Santos* 

Mais de seis décadas de embargo, 240 sanções adicionais desde 2017 e um sistema energético em colapso progressivo. Mas os cubanos resistem, e essa resistência também é uma forma de resposta política.

Em Matanzas, a energia dura duas horas por dia.

Não é falta de planejamento. Não é descuido. É a aritmética de uma guerra que nunca precisou ser declarada para produzir efeitos: petróleo que não chega porque o crédito internacional está bloqueado, peças que não chegam porque o fornecedor teme sanção secundária, usinas termelétricas envelhecidas operando no limite porque a manutenção depende de importações barradas há décadas.

Duas horas. O resto é escuro.

Foi nesse contexto que cheguei ao apartamento da família Porto, num conjunto residencial construído no final dos anos 1970 para camponeses que já eram donos das próprias terras, uma distinção que o discurso simplificado sobre Cuba raramente preserva. A porta se abriu. O cachorro Manolo avançou primeiro, caramelo, vira-lata, com a familiaridade de quem cresceu recebendo gente. A família serviu café. Estava delicioso. Existe, nesse gesto, uma lei não escrita da hospitalidade cubana: o que há, se divide.

Antes de embarcar, peguei da biblioteca do ICL um livro às pressas. “O que é ideologia”. Trouxe para o voo sem saber que ele seria um guia de leitura da ilha.

Marilena Chaui escreve nesse volume que a ideologia dominante converte processos históricos em fatos naturais. Desloca causas estruturais para explicações simplificadas. Não apaga apenas fatos. Apaga contexto e disputa.

A família Porto vive isso na prática. Quando a crise cubana é narrada sem o bloqueio, as duas horas de energia deixam de ser resultado de uma guerra econômica e passam a parecer destino. O sofrimento vira evidência moral. Nunca problema político.

A cidade de Havana ensina isso antes de qualquer análise. Ensina nos elevadores que param, nas conversas que calculam horários de energia como quem consulta a maré. Em diferentes momentos de 2024, dados da Unión Eléctrica de Cuba registraram déficits de geração que ultrapassaram 40% da demanda nacional. Em algumas regiões, cortes chegaram a 14 horas diárias. Nos povoados do interior, as duas horas da família Porto seriam luxo.

A crise em Cuba não é um evento; é um calendário sem pausa

Na ilha, o tempo tem uma medida própria. Não é o tempo do relógio, nem o dos dias, semanas ou anos. É o tempo do bloqueio, uma duração imposta de fora que se instalou por dentro, reorganizando o ritmo de tudo: do que se planta, do que se constrói, do que se sonha. Quem vive ou circula nas periferias brasileiras reconhece de imediato essa gramática. Resolver, adaptar, resistir. Não são verbos extraordinários. São o português cotidiano de quem aprendeu a viver dentro de um tempo que lhes foi criminosamente subtraído. A diferença é que em Cuba esse tempo é imposto por decreto de Estado estrangeiro, codificado em lei, renovado a cada administração. A violência tem endereço e tem assinatura.

No Museu Comunitário Quisicuaba, centro de Havana, a resposta a esse tempo imposto tem nome: solidariedade. O espaço distribui milhares de refeições gratuitas por dia. Abriga também uma policlínica com enfermaria, exames de imagem e, nas últimas semanas antes da nossa visita, estava finalizando a construção de um abrigo para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Não é assistência. É arquitetura de comunidade.

O dr. Henrique, diretor do espaço, é um senhor ágil e magnético que fala rápido, como quem sabe que a luz pode acabar antes do argumento.

“97% das pessoas que estão nas ruas têm problemas mentais ou psicológicos. Não são apenas pobres”, diz ele. “Precisamos de uma epidemiologia da vulnerabilidade.” A frase recusa a separação entre pobreza material e pobreza simbólica. Propõe que cada pessoa se entenda como “gestora sociocultural do próprio território”: não como beneficiária de serviço, mas como sujeito de um projeto coletivo.

Liderança comunitária ou sobrevivência com método? Em Cuba, talvez sejam a mesma coisa.

A dra. Lis Cuesta Peraza, coordenadora na Direção de Indústrias Culturais do Ministério da Cultura de Cuba, estava sentada numa mesa cercada por homens cubanos que a escutavam com a atenção de quem reconhece que a melhor coisa a fazer é calar e ouvir. Nenhum a interrompeu. Ela é sorridente, bem-humorada, com aquela leveza de quem domina um tema a ponto de poder brincar com ele. Seria possível ouvi-la por dias sobre assuntos tão distintos quanto a presença de chineses e negros na miscigenação que gerou o povo cubano, o papel do WhatsApp como prática cultural de resistência informacional ou a história do presente na ilha, esse tempo que ainda não virou arquivo, mas já pede interpretação.

Em algum momento Lis disse como quem está à vontade numa roda de amigos: “não sou doutora em comunicação e posso falar besteiras.” Mas o que se seguiu foram análises precisas sobre mídias digitais, plataformas e disputa de narrativa que poucos especialistas conseguiriam articular com tanta clareza. Ela contou como se sentiu em casa ao visitar o Brasil num congresso em 2014. Não foi cortesia diplomática. Foi o reconhecimento de que dois países formados pelo mesmo tráfico, pela mesma cana, pelas línguas irmãs guardam, no gesto e no humor, uma construção identitária que nenhum bloqueio conseguiu separar.

Enquanto Lis falava, nos serviram mais café. O mesmo gesto de Matanzas, repetido em Havana. Como se a ilha tivesse um reflexo involuntário diante de qualquer visita: dividir o que há, mesmo quando o que há é pouco.

Lis diz que a comunicação é o campo de disputa fundamental do século 21, e que esse espaço precisa ser ocupado pelo pensamento crítico. Pondera que a revolução é um organismo vivo: se modifica, negocia com o presente, sem abandonar o que a constituiu. A pergunta que essa conversa deixa não cabe em manchete: como um país governa sua própria narrativa quando as plataformas, os algoritmos e os fluxos financeiros de mídia estão concentrados fora de suas fronteiras?

O apagão não é apenas elétrico. É informacional.

Na terceira noite em Havana, fui à Fábrica de Arte Cubano.

O lugar é uma antiga fábrica de óleo de cozinha que passou por um retrofit sofisticado e hoje abriga, ao mesmo tempo, palestras, artes plásticas contemporâneas, shows, bares e restaurantes. Poderia estar em qualquer cidade de vanguarda da América Latina ou do mundo. Berlim, Buenos Aires, São Paulo. Mas está em Havana. E isso importa.

Ao subir no topo da fábrica, onde tudo acontece ao mesmo tempo sem que nada se cancele, onde não falta energia criativa nem elétrica, a cidade se abria lá embaixo. Havana no escuro. Ilhas de luz aqui e ali, o resto sombra. Como um mapa que mostrasse, com honestidade brutal, onde a guerra sem nome concentra seus efeitos. De cima, a cidade parecia respirar numa cadência irregular, apagando e acendendo, apagando e acendendo. E ainda assim, lá em cima, a música não parava.

A partir de 2017, os Estados Unidos implementaram mais de 240 medidas adicionais de sanções contra Cuba, segundo o Congressional Research Service e documentos apresentados à ONU. Cada uma chegou como atraso logístico, restrição financeira ou dificuldade técnica: remessas bloqueadas que não sustentam famílias, instituições financeiras que recusam operações sob pena de multa, navios que não atracam com combustível porque a seguradora avaliou o risco de sanção secundária como alto demais. Economistas chamam isso de extraterritorialidade das sanções: decisões tomadas fora do território cubano que moldam possibilidades de existência dentro dele. A crise energética não é só técnica. É geopolítica.

Reconhecer esse impacto externo não significa negar problemas internos. Cuba convive com baixa produtividade, dependência de importações e rigidez burocrática. Tudo isso é real. Mas essas condições, analisadas isoladamente, produzem  a operação que Chaui descreve como ideologia: convertem história em natureza, resultado em destino.

O elemento mais decisivo do momento cubano não é a escassez. É a duração da escassez. Esta crise não colapsa. Cansa. E o cansaço reorganiza expectativas, estreita o que uma geração inteira passa a considerar possível.

O que existe na ilha não cabe na narrativa do fracasso inevitável nem na retórica da resistência heróica. É algo mais difícil de enquadrar: uma sociedade sob pressão permanente, onde cada política pública encontra limites externos e cada decisão cotidiana exige gestão da escassez. Mas onde Manolo ainda corre até a porta, o café ainda é bom, o dr. Henrique ainda fala rápido porque tem muito a fazer antes de a luz acabar. E numa antiga fábrica de óleo de cozinha a música não para enquanto lá fora a cidade silencia no escuro.

José Martí, que morreu em combate em 1895 antes de ver Cuba livre, escreveu que “trincheiras de ideias valem mais que trincheiras de pedra.” A frase nunca foi tão contemporânea. Em 2026, a guerra mais eficaz contra Cuba não usa armas. Usa algoritmos, bloqueios financeiros e ausência de narrativa. A resistência mais persistente do povo cubano também não é militar. É cultural, comunitária e cotidiana: o museu que alimenta e abriga, a intelectual que analisa mídias com rigor e bom humor numa mesa cheia de homens que aprenderam a escutar, a fábrica que transforma óleo em arte enquanto a cidade ao redor navega no escuro.

Quando a escassez atravessa gerações, ela deixa de ser crise e passa a organizar o imaginário coletivo. Não define apenas o que falta. Define o que parece possível.

Talvez seja isso o que mais se veja em Havana quando a luz volta. Não o alívio, mas o cálculo. O que fazer nas poucas horas com energia? O que adiar? Do que desistir?

Guerras que duram demais deixam de parecer guerra. Passam a ser o modo como a vida acontece.

Marcelo Santos é jornalista, doutor em comunicação e semiótica pela PUC-SP e diretor de produtos no ICL

 

Fontes: Congressional Research Service (CRS Reports on Cuba sanctions, 2017–2024); Relatórios de Cuba à ONU sobre impacto do bloqueio (2023–2024); Unión Eléctrica de Cuba, dados repercutidos por Reuters, BBC e Associated Press (2024); Marilena Chaui, O que é ideologia (Brasiliense); José Martí, Granos de oro: pensamientos seleccionados en las obras de José Martí (Cuba contemporánea, 1918).





Fonte: ICL Notícias

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